Meu nome é Marco Aurélio Nacao de Moura Portugal.
Marco Aurélio é o nome de grande amigo dos meus pais na época de meu nascimento. Nome de imperador romano. É um nome que eu acho muito bonito. É também incomum o suficiente para não conhecer muitas pessoas que compartilhem o nome comigo e eu vejo valor nisso. Conheço muitos Marcos, mas Marco Aurélio é um pouco mais raro.
O sobrenome Nacao vem da família da minha mãe, descendentes de japoneses. A grafia correta seria "Nakao", mas um erro no registro há muitos anos se manteve por diversas gerações. Hoje em dia se eu tentasse corrigir, sinto que eu perderia um pouco da conexão com a minha família.
De Moura Portugal vem da família do meu pai, descendentes de italianos e portugueses. Lembro que quando comecei a assinar meu nome eu abreviava o Moura para "M." e minha vó, muito vaidosa, veio conversar comigo me cobrando por abreviar justo o nome da família dela (Portugal é do meu avô). Desde então eu assino meu nome completo: Marco Aurélio Nacao de Moura Portugal.
Meu nome rima e eu acho isso muito irado.
Marco Aurélio Nacao
de Moura Portugal
Não apenas um orientalUma pessoa sem igual
Minha família sempre me chamou de Marco ou Marco Aurélio. Muitos parentes me chamavam de Marcão quando pequeno, alguns até hoje (acho que na época era para diferenciar do amigo do meu pai que era conhecido como Marquinho). Eu gostava muito do paradoxo. Pois eu era pequenino e me chamavam com aumentativo, sempre me senti muito querido quando chamado assim. Depois de um tempo em alguns grupos comecei a ser chamado de Marquinho, em outros de Nacao e até mesmo Portugal (ou Portuga).
Entretanto, sem dúvidas, o apelido que mais me marcou a minha vida inteira foi "Japa". Eu costumava achar engraçado e contar para as pessoas como em diversos grupos diferentes meu apelido sempre acabava sendo "Japa", mesmo os grupos não se conhecendo. Hoje em dia eu tenho mais noção que é consequência de eu não ser lido como uma pessoa branca. Eu até comentava que não achava que tinha o fenótipo asiático tão marcado quanto outras pessoas, como minha mãe e outros parentes, de forma que me sentia deslocado em ambos os grupos.
É bem verdade que em diversos grupos esse apelido foi herdado. Ao me integrar em um grupo novo com pessoas que já me conheciam como "Japa" por causa de outro grupo, era natural que meu apelido nesse novo grupo se mantivesse.
Isso nunca foi um problema, quem me conhece há muito tempo sabe que eu me apresentava com esse apelido, eu sempre usei em diversas contas na internet, seja em jogos, perfis em redes sociais e até mesmo no nome deste blog (MisterJaPa). Eu inclusive utilizava variações em outros contextos (MagicJaPa, SuperJaPa, etc...) e brincava com jogos de palavra (Japamilanês, Tapa na Jarra...). Mas uma coisa que sempre me incomodou era que algumas pessoas que me conheceram como "Japa" não sabiam, ou não se importavam em saber meu nome.
Meu nome não é "Japa"
Aqueles que prestam atenção aos detalhes vão perceber que nos últimos anos eu comecei a alterar meu apelido em todas as plataformas. MagicJetPack foi o que eu escolhi por manter as letras MJP (de MisterJaPa e MagicJaPa) e ressignificá-las. Magic é meu jogo preferido de todos os tempos e Jet Pack é uma máquina que simboliza um dos sonhos mais antigos do ser humano: Voar. A junção dos dois também alude a uma das leis de Clarke: "Qualquer tecnologia suficientemente avançada é indistinguível da magia.".
Mas o que motivou essa mudança? O que mudou?
Primeiramente, o motivo pelo qual eu não via problema no apelido "Japa" e o abracei tem a ver com minhas particularidades e individualidades. Eu cresci no Rio de Janeiro, onde a comunidade japonesa não é tão grande, então apesar de conhecer algumas pessoas amarelas, eu nunca fui muito próximo de descendentes de japoneses fora da minha família. Eu era sempre "O Japa", era algo único e especial que eu gostava. Principalmente, por que eu realmente sou descendente de japoneses, me identifico e gosto da cultura japonesa e sempre tive orgulho disso, até mesmo por eu me encaixar na maioria dos estereótipos. Além disso, ser chamado de "Japa" sempre fez muito mais sentido pra mim do que os outros apelidos que colocavam em mim, como "Jaspion", "Jiraya", "China" e "Jackie Chan".
Algumas pessoas me perguntavam como eu preferia ser chamado, acredito que por entenderem os estereótipos que o apelido carrega. Eu costumava dizer que preferia ser chamado pelo nome mas não ligava de ser chamado de "Japa" por estar acostumado. Eu entendo alguém próximo ainda me chamar assim, pois ele foi parte da minha identidade por muitos anos e eu entendo o quanto pode ser difícil para as pessoas mudarem certos hábitos. Eu também sempre achei carinhoso quando utilizam variantes como "Japito", "Japolino", entre outros.
Só que quando eu comecei a conviver com mais pessoas amarelas, comecei a entender mais sobre o que é ser amarelo no Brasil. Comecei a ler, ouvir e estudar sobre o assunto e me colocar no lugar de outras pessoas. Mesmo que eu não ligue de ser chamado de "Japa", muitos amarelos não gostam. Tanto pelo estereótipo que o apelido carrega, como muitas vezes por não serem nem descendentes de japoneses. Eu permitir que me chamem assim, pode fazer as pessoas assumirem que não há problema em chamar outras pessoas amarelas dessa forma. É muito importante que tenham consciência do quanto esse apelido pode ser ofensivo para algumas pessoas, mesmo que não seja pra mim.
Mas o principal mesmo, foi começar a ouvir mais pessoas que me chamarem pelo meu nome. Eu comecei a perceber o quanto eu gosto de ser chamado assim, o quanto eu me sinto alguém com uma identidade única. Eu sou uma pessoa, eu tenho um nome, e não apenas um apelido genérico, minha individualidade é respeitada.
PS: Por algum tempo eu tenho um rascunho deste post guardado no blog para escrever sobre esse assunto. O que me incentivou para finalmente terminar de escrever foi uma entrevista da atriz Ana Hikari para o programa Sexta Black da Luana Génot.
Destaco um trecho do início do vídeo, quando ela se autodeclarou: "Brasileira, amarela, bissexual e Ana Hikari. Acho que é importante falar o nome, já que as pessoas geralmente tiram o nosso nome e acho que meu nome faz parte da minha identidade."
Eu me identifiquei demais com essa frase. Me tocou de uma forma muito profunda. Recomendo também outro vídeo do mesmo programa que também fala sobre questões raciais da identidade amarela.